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Conheça a história de Buh D’Angelo, a jovem de 23 anos que ganhou um prêmio do G20

enero 8, 2018 11:32 , por snjuventude@gmail.com - 0no comments yet | No one following this article yet.
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Em menos de três anos de funcionamento, a InfoPreta ganhou as manchetes de jornais brasileiros e venceu prêmios internacionais na luta pela erradicação do preconceito no mundo empresarial

 

Em agosto de 2015, Buh D’Angelo dos Santos, 23, não desconfiava que a sua vida estava prestes a mudar. Dentro de menos de um ano, seu nome seria destaque em sites e revistas como o Huffpost Brasil, El País e Pequenas Empresas & Grandes Negócios, nas emissoras Rede Globo e MTV, além de sair na imprensa internacional. Naquela época, porém, Buh nem desconfiava que havia acabado de fundar a empresa que se tornaria um dos empreendimentos mais comentadas de 2017, tampouco que a repercussão desse trabalho faria do seu nome sinônimo de empoderamento e inclusão social para muitos moradores da periferia de São Paulo.

“Eu sempre fui muito à margem, muito diferente das pessoas com quem convivia. Ser mulher, negra e estar inserida no universo da tecnologia fazia de mim um ETzinho aos olh os dos meus colegas e do mercado de trabalho”, conta Buh, em uma tarde de agosto deste ano, enquanto examinava um computador na bancada diante de si e removia parafusos com a minúcia de um cirurgião que começa um procedimento de risco. Do outro lado do balcão, uma fila de mulheres esperava atendimento com laptops e computadores entre os braços, aglomeradas na pequena loja da Rua Brigadeiro Tobias, no centro da capital paulista.

Em outubro de 2015, a InfoPreta ganhou vida e entrou para as estatísticas de novas empresas brasileiras. Ela tinha, porém, um diferencial: os seus serviços seriam direcionados para o público feminino e o quadro de funcionários seria composto por mulheres negras, trans, homossexuais ou jovens em situação de vulnerabilidade. Essas particularidades não surgiram, porém, como consequência de cálculos estratégicos e de planos de negócios, mas da experiência pessoal de Buh. “O empreendedorismo da pessoa negra sempre nasce da vivência dela. Eu senti na pele os preconceitos velados e a exclusão a que as mulheres - com ênfase nas de cor - são submetidas, principalmente no ramo de Tecnologia da Informação (TI)”, explica a empresária.

Formada em eletrônica, automação industrial, manutenção, tecnologia da informação e robótica, Buh D’Angelo começou a acumular certificados de cursos técnicos aos 16 anos, quando descobriu que a sua curiosidade se transformaria em uma carreira. Ansiosa para entrar no mercado de trabalho e exercer a profissão, Buh se lançou no máximo de programas de estágio em que podia se inscrever. A realidade, porém, mostrou-se distinta dos seus ideais de profissão. “Uma vez, me contrataram para um estágio em eletrônica, mas não passaram nenhuma demanda relacionada à área para mim, enquanto os outros estagiários eram confiados com tarefas mais técnicas. Afoita para trabalhar, eu perguntava se tinha algo que eu podia fazer. Mais de uma vez, disseram que, se eu queria trabalhar lá, podia limpar os banheiros”, lembra, sobre os abusos institucionais.

A desilusão profissional acarretou em uma crise depressiva da qual Buh levou um ano para se recuperar. A desconfiança e a sensação de despertencimento, por outro lado, nunca sumiram completamente, e acompanhariam a empresária daquele ponto em diante. O racismo velado que havia sofrido durante as aulas dos cursos técnicos e em estágios profissionalizantes se misturaria com a vivência de preconceitos relacionados ao gênero. Essas experiências criaram, para a fundadora da InfoPreta, uma nova perspectiva de serviço e de atendimento em TI: “A assistência técnica é uma área que tem o machismo encruado em si. Essa cultura de subestimar o conhecimento do público feminino causa apreensão em muitas mulheres que dependem de uma assistência especializada para consertar um celular ou computador. Elas têm medo de serem roubadas, enganadas e até assediadas”, opina Buh, sobre as deficiências do setor.

Sem emprego e com diplomas acumulados sobre o criado-mudo, Buh se oferecia para consertar computadores de amigos no Facebook. O preço era flexível: “Eu aceitava como pagamento aquilo que tinham para oferecer. Quando a pessoa precisava muito da máquina para estudar ou ganhar a vida e não tinha como me dar um tostão pelo conserto, eu fazia de graça”, lembra, sobre os primeiros passos da InfoPreta.

- Buh, você sabe se as peças que a gente pediu chegaram?

- Senhora, seu laptop ficará pronto amanhã!

Duas vozes se sobressaem no frenesi costumeiro da assistência técnica da Rua Brigadeiro Tobias. São Danielle Esli Lourenço e Mônica Sousa, sócias de Buh D’Angelo e responsáveis por tocar o empreendimento junto à colega. Desenvolvedora de softwares e programadora, Mônica, de 25 anos, compartilhou com Buh muitas das vivências fundamentadas em preconceito de gênero na área de TI que marcaram a experiência da sócia. Hoje, ela também é responsável pelo conserto de computadores e, junto aos outros funcionários, realiza o atendimento dos mais de 50 clientes fixos da InfoPreta.

Já Danielle, de apenas 20 anos, fica responsável pela divulgação da loja nas redes sociais e por toda gestão de conteúdo, além de cuidar da área administrativa. “No começo não era assim, a nossa popularidade cresceu muito rápido”, lembra. Hoje, o empreendimento acumula mais de 13 mil curtidas no Facebook e se comunica com pessoas em diversas regiões do país. “É difícil acreditar que, até um ano atrás, a InfoPreta era praticamente desconhecida”, pondera Danielle, pensativa.

O frenesi teve início em agosto de 2016, quando Buh usou as redes sociais para divulgar que o foco do serviço da loja é o atendimento às mulheres e o objetivo da empresa é empregar profissionais para quem faltam oportunidades no mercado de trabalho. A postagem logo viralizou e, desse momento em diante, a InfoPreta passou a ser procurada por jornais e revistas ao redor de todo país. Todos queriam saber mais sobre a tal assistência técnica que havia ganhado as manchetes. “Tinha gente que passava aqui só porque queria nos conhecer ou tirar uma foto com a gente, não precisavam de consertar nada”, lembra Danielle, e ri.

Apesar de voltar a divulgação do serviço para mulheres negras ou em situação de vulnerabilidade, a InfoPreta não nega atendimento a ninguém. “Temos ótimos clientes do sexo masculino, mas já passamos por situações no mínimo desagradáveis”, conta Danielle, e acrescenta que a postura masculina em relação aos serviços das jovens é, geralmente, de desconfiança. “No mercado de exatas, as mulheres estudam mais do que os homens, de acordo com a minha experiência. Estamos constantemente na defensiva, em uma posição de reafirmação que é muito cansativa. É como se os nossos esforços só fossem validados com o reconhecimento dos clientes masculinos, que têm muita resistência para aceitar que esse espaço seja ocupado por mulheres, ainda mais as negras, da periferia e com orientação de gênero e sexualidade que foge dos padrões”, opina. Para a gestora de conteúdo, o estranhamento causado pela sua atuação na área de TI é fundamentado na predominância de homens no ramo, até hoje considerado masculino.

DESIGUALDADE EM NÚMEROS

Uma pesquisa realizada em 2015 pela empresa de recrutamento global Harvey Nash revelou que mulheres representam apenas 8% dos gestores em TI do mundo. No estudo, quase 4 mil CIOs - funcionários responsáveis pela parte de TI da empresa, do inglês - foram consultados em 30 países diferentes, e os resultados foram alarmantes. Com o levantamento, concluiu-se que menos de um terço dos funcionários de uma empresa na área de tecnologia são mulheres e que apenas 7% delas chegam a cargos de liderança.

COLHENDO OS FRUTOS

Uma vez a cada 15 dias, a pequena assistência técnica na rua Brigadeiro Tobias é tomada por uma movimentação ainda mais frenética que a habitual. Diante da fachada da InfoPreta, enfileiram-se dezenas de jovens que aguardam o abrir das portas da loja na esperança de avançarem até o balcão, onde uma equipe de sete pessoas se desdobra para dar conta do público crescente. Antes do fim do dia, várias daquelas mulheres vão para casa com laptops entre os braços.

Quando criou o projeto Note Solidário, Buh D’Angelo não imaginava o quão popular e desafiadora a iniciativa se tornaria. Baseado na ideia de ‘empreendedorismo social’, que une os ideais de crescimento de uma empresa ao desenvolvimento da comunidade na qual ela atua, o Note Solidário surgiu como filho único da InfoPreta. “Funciona assim: nós promovemos campanhas nas mídias sociais e pedimos para que as pessoas que têm laptops que não funcionam não os descartem, mas doem para a gente. Nós recolhemos esses computadores e investimos o tempo e os recursos necessários para que eles voltem a funcionar normalmente. Depois do conserto, doamos as máquinas para jovens de comunidades carentes que precisam delas para estudar e promover sua capacitação profissional”, explica Danielle Esli Lourenço, sobre a ação solidária que iniciou junto à sócias.

“Mas se engana quem pensa que é simples ganhar os computadores”, acrescenta a gerente administrativa da InfoPreta, sobre as condições impostas pela empresa para evitar fraudes. Danielle explica que, para ser beneficiado pela iniciativa, o jovem precisa comprovar que tem perfil baixa renda, recebe ajuda de programas sociais e está matriculado em alguma escola, universidade ou curso técnico. Além disso, ao fim de todo bimestre os beneficiados devem compartilhar seu desempenho acadêmico ou escolar com as sócias da loja, e, assim, comprovar que a máquina está sendo usada para fins educacionais. “Nós tomamos muito cuidado para evitar casos de falsificação, não queremos doar computadores para pessoas que têm condição de comprá-los em detrimento de alunos que realmente dependem desse recurso para se formar”, conta Danielle.

Desde sua implementação, o Note Solidário já beneficiou mais de 60 estudantes. A iniciativa atingiu o auge da popularidade em abril deste ano, com o prêmio Wommen 20 Summit 2017, promovido pelo G-20, grupo das 20 maiores economias do mundo.

A premiação tem como objetivo promover a inclusão das mulheres no mercado de trabalho e garantir independência digital e financeira ao redor do mundo, em busca por equidade de direitos e oportunidades entre os gêneros. Representante do Brasil, a InfoPreta foi premiada com o terceiro lugar na competição. A cerimônia foi sediada em Berlim, na Alemanha, com a participação de Angela Merkel, presidente do país e líder do grupo de nações.

“Foi algo na ordem dos sonhos, tudo muito surreal, desde o recebimento do convite até o momento em que subimos no palco e apertamos a mão da presidente da Alemanha”, lembra Buh D’Angelo, sobre o dia mais importante de sua vida. O reconhecimento internacional permitiu que a fundadora da InfoPreta retornasse para a loja no tumultuado centro de São Paulo ainda mais motivada a tocar a empresa e as iniciativas sociais. “Eu, como mulher negra em um cargo de liderança, acabo tendo muita projeção e, com isso, muita responsabilidade. Além de oferecer o melhor produto possível aos nossos clientes, nós trabalhamos para promover oportunidades para que cada vez mais mulheres negras não estejam apenas empregadas, mas atuem nas suas áreas de escolha e não tenham seu crescimento barrado pelo racismo estrutural e pelo machismo que permeia a cultura empresarial”, diz Buh.

 


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